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quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Dimensões Místicas do Shabat


“O Eterno fez os céus e a terra, o mar e tudo o que há neles em seis dias e repousou no sétimo dia, e por isso o Eterno abençoou o dia de Shabat e o santificou”. (Exodus 20:8-11)
Edição 80 - Junho de 2013 Revista Morashá

A observância do Shabat é um dos fundamentos do judaísmo. A santidade do dia e os mandamentos de guardá-lo e honrá-lo são enfatizados ao longo da Torá.  O Shabat desempenha um papel central no relato da Criação do mundo e da outorga da Torá, nos Livros dos Profetas e na literatura rabínica de todas as gerações. Ademais, o Shabat é o único ritual que consta nos Dez Mandamentos e é o mandamento cuja observância é enfatizada o maior número de vezes na Torá.
Os Cabalistas ensinam que a Criação é constituída por três categorias básicas: Olam (mundo), Shaná (tempo) e Nefesh (alma). A santidade do mundo (Olam) está mais concentrada em Eretz Israel, na Terra Santa, particularmente em Jerusalém e em especial no local onde foi erguido o Templo Sagrado. No âmbito do tempo (Shaná), a santidade prevalece no Shabat e nos Yamim Tovim – as festividades judaicas.
De acordo com o judaísmo, a santidade se manifesta no tempo por meio de dias consagrados, seja na semana, no mês ou no ano. O conceito de tempo, conforme a Torá, não é uma passagem linear, e sim, uma espiral, uma hélice, que ascende da Criação. Há, portanto, uma reversão constante a um padrão fundamental, ou seja, um ciclo de tempo que se repete. O que se espera do ser humano é que tal ciclo seja virtuoso e não vicioso – que a hélice ascenda e não descenda. Exemplificando: Rosh Hashaná e Yom Kipur ocorrem todos os anos, no primeiro e no décimo dia do mês de Tishrei, respectivamente, mas espera-se que os seres humanos melhorem de um ano para o outro. 
Esse mesmo conceito de tempo se aplica à semana judaica. O Shabat, tendo sido criado e instituído por D’us, ocorre toda semana, sem exceção. Mas espera-se que um Shabat seja melhor que o anterior – que, à medida que passa o tempo, os seres humanos se aperfeiçoem e melhorem o mundo.
O ciclo semanal judaico está associado aos sete dias da Criação. Todo dia é, de certa forma, uma recapitulação do que ocorreu no Gênese. Cada dia da semana é, portanto, um modelo que manifesta a qualidade especial de uma das Sefirot emocionais, que são os canais de energia Divinos que criaram e que continuam a criar, incessantemente, toda a existência. O motivo por que o mundo foi criado em sete dias – de fato, a razão por que a semana é constituída de sete dias – é que cada um deles corresponde a uma das sete Sefirot emocionais. Domingo, o primeiro dia da semana judaica, corresponde à primeira Sefirá emocional – Chessed (Bondade, Amor, Atração). Segunda-feira, o segundo dia semanal, corresponde à segunda Sefirá emocional – Guevurá (Justiça, Disciplina, Restrição, Severidade). Terça-feira está associada à Tiferet (Beleza, Compaixão), quarta-feira à Netzach(Vitória, Ambição, Eternidade), quinta-feira à Hod (Humildade, Majestade, Glória), sexta-feira à Yessod(Fundamento, Carisma) e o Shabat, o sétimo e último dia da semana, à Malchut (Realeza, Soberania, Liderança).
Shabat representa, portanto, a manifestação pública do Rei dos reis. O Sétimo Dia é o dia da semana em que a glória de D’us se torna mais perceptível na Terra: é a culminação do processo por meio do qual o Infinito transmite Sua glória das mais altas esferas da existência à nossa.
Todo Shabat é o dia mais sagrado do ano – até mais do que os dias festivos judaicos –, pois é o dia do Rei do Universo. Já os outros dias sagrados do calendário judaico estão ligados ao Povo Judeu: celebram ocasiões especiais ou eventos milagrosos que D’us realizou em nosso benefício. O Altíssimo, de certa forma, se junta a nós para celebrar tais datas, tornando-as “festas para o Eterno” (Levítico 23:4) – dias de comunhão entre os Filhos de Israel e o Eterno. Mas o Shabat, em sua essência, não está ligado ao Povo Judeu: o Sétimo Dia precede a criação física do ser humano. O Shabat é o dia do Eterno, que Ele santificou após ter finalizado a Criação do Universo. Graças a seu grande amor por nós, D’us nos convida para compartilhar Seu dia com Ele. Esse é um dos significados do verso que utiliza linguagem metafórica e antropomórfica para descrever a Criação: “[O Shabat] é um sinal entre Mim e os Filhos de Israel para sempre, pois em seis dias fez D’us os Céus e a Terra, e no sétimo dia, cessou de sua obra e repousou” (Êxodo 31:17).
A própria palavra hebraica Shabat está associada a Shuv, “retorno”, que é a raiz de Teshuvá, que significa o retorno a D’us. Essa associação de palavras revela um dos propósitos fundamentais do Shabat: o retorno à Fonte Primária e Suprema. Pois o Shabat serve para nos lembrar, constantemente, de que foi D’us quem criou os Céus e a Terra e que, portanto, toda a existência pertence a Ele e Dele depende. Esse conceito é elucidado por Rabi Chaim ibn Attar, o Ohr HaChaim. Em seus comentários sobre o primeiro Shabat da Criação, esse talmudista e cabalista sefaradi escreve que, no Gênese, D’us criou um Universo que permaneceria em existência por apenas seis dias.
No sétimo dia da Criação, o Altíssimo criou o Shabat, que, a cada semana, provê ao Universo uma fonte de vida que lhe permite existir por mais seis dias. Portanto, o Shabat é o canal Divino utilizado para manter o Universo. Na ausência do Shabat, o mundo revertia à não existência.
Os seis dias mundanos da semana judaica – que se iniciam quando termina o Shabat, no sábado à noite, e terminam na sexta-feira, antes do pôr do sol, quando começa o Sétimo Dia – são caracterizados pela descida da plenitude Divina ao mundo. Durante esses seis dias, o homem tem como missão consertar e retificar a existência. Isso engloba não apenas a tarefa de melhorar o mundo de forma física e tangível, por meio de esforços e atos construtivos, como exercer uma profissão que contribua com a sociedade, mas também o trabalho espiritual – a busca pelo autoaperfeiçoamento. No âmbito da alma humana, cabe ao homem empregar grandes esforços para se corrigir. Essa incessante correção de falhas – o trabalho de aperfeiçoamento de caráter e comportamento – constitui um esforço criativo constante. 
A missão de corrigir tanto o mundo como a própria alma do homem – que é o microcosmo da Criação –, exige ação, ou seja, atos construtivos. O Shabat, por outro lado, fundamenta-se na passividade – na autoanulação perante a santidade. Durante a maior parte do dia sagrado, oramos e estudamos a Torá, que são mandamentos cumpridos por meio de pensamentos e palavras. Mesmo as orações de Shemonê Esreh (a Amidá) de Shabat são bastante curtas: abordam a santidade do dia e a recompensa prometida àqueles que o guardam, e não mencionam os muitos pedidos e anseios, tanto materiais quanto espirituais, que expressamos na Amidá recitada nos seis dias mundanos da semana.
O motivo disso é que a própria habilidade de receber a essência espiritual do Shabat advém da autoanulação e da disposição e habilidade de se render perante o Eterno: o ato do homem de abdicar de seu estado humano e mundano perante a Santidade Divina, por meio do qual todos os mundos, tanto o nosso mundo físico quanto os espirituais, são elevados. Por um lado, são os seis dias que precedem o Shabat que permitem ao homem aperfeiçoar o mundo e sua própria alma. Por outro, o Shabat é a fonte da plenitude para os seis dias da semana que o seguem. Se não existisse o Shabat, o mundo se esgotaria, tanto física como espiritualmente. Sem o Shabat, não haveria renovação e, portanto, o mundo estaria desprovido da energia necessária para continuar a existir.
Muitas pessoas não compreendem ou interpretam mal a importância e o propósito do Shabat. Aqueles que desconhecem as dimensões místicas do dia sagrado podem acreditar que o propósito do Shabat é o mesmo que o dos dias do fim de semana. Infelizmente, há pessoas que opinam que o Shabat é um costume arcaico, instituído em uma época em que os seres humanos eram obrigados a trabalhar sete dias por semana. Tal conceito é errôneo. O Shabat é o dia de D’us, instituído já no Sétimo Dia da Criação, milênios antes de a Torá ser outorgada no Monte Sinai. De fato, a santidade do Shabat, como a luz do sol, é uma dádiva que independe dos seres humanos. Além disso, sua santidade é comparável à de uma localização sagrada, como, por exemplo, a cidade de Jerusalém: é algo intrínseco, imutável, mas é perceptível apenas àqueles que estão abertos à espiritualidade.
É difícil, e, em certos casos, até impossível, transferir santidade, especialmente quando algo é consagrado não pelo homem, mas pelo Altíssimo. Por exemplo, nenhuma cidade, nem mesmo na Terra Santa, pode tomar o lugar de Jerusalém. Da mesma forma, nenhum edifício, independentemente de quão belo ou grandioso seja, pode substituir o Templo Sagrado. De modo análogo, nenhum dia pode substituir o Shabat. Mas apesar da qualidade de santidade ser um conceito objetivo, o grau de santidade que o ser humano pode presenciar depende de seu preparo e de sua abertura espiritual. Pode-se viver em Jerusalém e nunca desfrutar da santidade da cidade e de seus locais sagrados; pode-se acreditar que a cidade não é diferente de qualquer outra. O mesmo vale para o Shabat. Por outro lado, quanto mais intensa e sincera for a busca pela espiritualidade durante os seis dias mundanos da semana, mais fácil será sentir a santidade do Shabat. E quanto mais alto for o nível espiritual de um judeu, mais aguçada será sua percepção da elevação de todos os mundos no Sétimo Dia.
Como mencionamos anteriormente, Shabat é o dia que manifesta a Sefirá de Malchut, Realeza. Esse canal de energia Divino representa a Shechiná – a Presença Divina em nosso mundo. Além de ser a última SefiráMalchut é também um receptáculo que absorve todas as Sefirot que a precedem. Malchut é, por vários motivos, uma Sefirábastante diferente das demais: é a única Sefirá emocional “feminina”, e, como o Shabat, o dia ao qual está associada, é considerada “passiva”.
A analogia a seguir facilita a compreensão da associação entre Shabat e Malchut e do fato de tal Sefirá ser considerada “feminina” e “passiva”. É o homem que engravida a mulher: ele é, aparentemente, o agente, o criador da vida. Contudo, na realidade, é a mulher que, após um período de espera, produz uma vida, dando à luz  um ser humano. A mulher desempenha o papel principal na criação de seres humanos. Analogamente, Malchut é um receptáculo que recebe de todas as outras Sefirot, mas é ela quem direciona e transmite uma luz unida para o mundo, harmonizando todos os outros atributos Divinos que absorveu, projetando-os para baixo, para dentro da Criação. Da mesma forma que é a mulher que serve como o canal para a criação da vida, Malchut é o instrumento por meio do qual ocorre o processo contínuo de Criação do Universo. O mesmo conceito se aplica a Shabat, o dia que reflete a Sefirá de Malchut. O Sétimo Dia é o dia da passividade, mas é o meio pelo qual o mundo é recriado – o que permite que continue a existir pelos próximos seis dias.
À luz do que foi explicado acima, podemos vislumbrar o papel fundamental que o Shabat exerce em toda a Criação. Voltando à analogia: assim que a mulher engravida, há um período de gestação de aproximadamente nove meses. Da mesma forma, sabe-se que após semear, é necessário aguardar um período de tempo antes de poder colher. Se tais períodos de espera não forem respeitados, não nascerá uma criança e não haverá uma colheita. Tal lição vale para o Shabat. D’us ordenou que o homem trabalhasse durante os seis dias mundanos da semana para aperfeiçoar tanto o mundo quanto a si próprio. Contudo, o mundo, assim como uma mulher que engravidou, necessita de um período de gestação, que dura um dia por semana. Se tal período de passividade não for respeitado – se o Sétimo Dia não for observado conforme a Vontade Divina, que é transmitida para o homem por meio da Torá –, o mundo não será recriado e a humanidade não poderá semear o que plantou, espiritual ou fisicamente.
A noite do Shabat
Shabat é a manifestação da Sefirá feminina de Malchut, a Shechiná – um termo que denota a presença iminente de D’us no mundo. Não surpreende, portanto, o fato de a mulher desempenhar um papel fundamental no cumprimento da observância do dia sagrado. Um dos mais importantes mandamentos do Sétimo Dia é o acendimento das velas antes do pôr do sol, na sexta-feira. Esse mandamento deve ser cumprido pela esposa do lar e suas filhas. As velas, símbolos da santidade do dia, enfatizam a luz do Shabat e a missão singular da mulher como “representante” da Shechiná.
Na noite do Shabat, o lar de uma família judia deve se transformar em um santuário. A mesa em que é posta a chalá, os pães trançados, e as velas de Shabat, simbolizam dois dos principais elementos do Templo Sagrado: o Lechem HaPanim – os doze pães que eram ingeridos pelos Cohanim, os sacerdotes, todo Shabat, e que representavam o sustento do homem – e a Menorá – o candelabro de sete braços que simbolizava a Sabedoria Divina, a Torá.
Um dos principais rituais do Shabat é o Kidush, recitado sobre um copo de vinho. Nossos Sábios ensinam que o Kidush de sexta-feira à noite é o próprio cumprimento do quarto dos Dez Mandamentos: “Lembre-se do dia do Shabat para santificá-lo”. O Kidush, que literalmente significa “separação” ou “santificação”, enfatiza a diferença entre os seis dias mundanos da semana e o sétimo, sagrado. A cerimônia do Kidush, além de ser, por si só, o cumprimento de uma Vontade Divina, permite que a alma judia adentre um estado de tranquilidade e receptividade espiritual.
Kidush é feito sobre um copo de vinho (sendo este, evidentemente, Casher), pois há um conceito no judaísmo de que ideias e princípios devem se traduzir em atos. Portanto, a santificação do Shabat, o Kidush, ocorre não apenas por meio da recitação de trechos sagrados, mas também pela ingestão de vinho. Além disso, o vinho do Kidushlembra as libações de vinho que eram ofertadas no Templo Sagrado.
O copo do Kidush simboliza a Shechiná – o receptáculo por meio do qual, e no qual, é transmitida a bênção Divina. Dentro do copo é despejado o vinho, que evoca a fartura, a plenitude e o poder que advêm de fontes espirituais, sobrenaturais. O vinho tinto expressa, de certa forma, um aspecto da segunda Sefirá emocional, Guevurá – Poder, Justiça e Severidade. Portanto, há um costume cabalístico de despejar um pouco de água sobre o vinho do copo do Kidush. De acordo com a Cabalá, a água representa a primeira Sefirá emocional, Chessed – Bondade e Amor. Uma pequena quantidade de água é despejada sobre o vinho para amenizar a Guevurá – para criar harmonia entre as duas primeiras Sefirot emocionais.
Rabi Yehudá Lowe, o Maharal de Praga, um dos maiores cabalistas e Sábios de todos os tempos, conhecido por ter criado o Golem, explica um motivo por que se utiliza o vinho no Kidush. O Maharal ensina que essa bebida é singular pelo fato de ser não meramente um produto da uva, mas sua própria essência. Em seu estado natural, a uva é uma fruta como qualquer outra. Antes de ingeri-la, recitamos a bênção Bore Peri Ha’Etz, que vale para qualquer fruta que cresça em uma árvore. Contudo, a uva oculta dentro de si suco que pode se transformar em vinho, um produto que, na linguagem antropomórfica do Talmud, “traz alegria a D’us e ao homem”. Isso significa que a essência e o potencial da uva são muito maiores do que ela própria. A bênção feita sobre o vinho, Bore Peri Ha’Guefen, é singular, pois a essência da uva supera seu estado natural.
O mesmo é verdadeiro, explica o Maharal, sobre o homem. Como a uva, o corpo do homem oculta uma alma, que é sua essência. O ser humano pode ignorá-la e até feri-la. Mas também é dada ao homem a opção de elevá-la e purificá-la a tal ponto que mesmo o corpo que a encobre seja santificado, permitindo que o ser humano viva neste mundo material e, simultaneamente, acima dele. Além disso, por meio do Shabat, o homem pode se tornar a própria alma do mundo, dando vida à existência, para que ela possa continuar a existir pelos seis dias que seguem o Sétimo Dia. Por esse motivo, explica o Maharal, a santidade do Shabat é proclamada por meio do vinho.
Cabe lembrar que, durante a recitação do Kidush, todos os presentes permanecem de pé, pois sua recitação (em particular, a do trecho de Vayechulu) serve de testemunho de que D’us criou os Céus e a Terra, e, de acordo com a Lei Judaica, toda pessoa deve permanecer de pé enquanto presta testemunho.
O dia do Shabat
De acordo com o judaísmo, a escuridão da noite simboliza a ocultação. A noite de Shabat, horas de escuridão, é comparada a um dos símbolos da Shechiná – a lua, que não possui luz própria. Já que a noite de Shabat, como a lua, não possui sua própria luz, ela recebe e é preenchida pela luz do dia do Shabat, o dia seguinte. Mas já que a iluminação é sentida de forma mais contundente do que a própria fonte de luz – à noite, por exemplo, percebemos a iluminação advinda da lua e não a fonte de luz que ela reflete – é comum sentir a santidade do Shabat de forma mais intensa na sexta-feira à noite do que no sábado. Esse fenômeno também se deve ao elemento de novidade – a transição dos seis dias mundanos da semana para o Shabat.
O dia de Shabat, em contraste com a noite anterior, representa não a iluminação, mas a própria luz do Sétimo Dia. Em tal dia, encontramo-nos na presença do próprio Altíssimo, acima e à parte de todos os mundos, em um nível denominado pela linguagem da Cabalá de Atiká Kadishá – “o Sagrado Ancião”. Esse termo se refere a Keter(Coroa) – uma Sefirá tão elevada que nem sequer é considerada uma das 10 SefirotKeter é a fonte de todo prazer e desejo. Esse nível se manifesta dentro da alma por meio da ligação com o prazer intrínseco do próprio dia do Shabat. Portanto, a refeição do dia de Shabat, que é realizada após as rezas matinais na sinagoga, é denominada de a refeição de Atiká Kadishá, pois nela, o homem deve desfrutar do nível do Eterno – a Fonte de todos os prazeres.
Um Kidush também é recitado antes da refeição do dia de Shabat. Esse Kidush é chamado de Kidush Rabá, o “Grande Kidush”, mas, na realidade, o texto recitado é curto.
A tarde do Shabat
Seudat Shlishit, a terceira refeição do Shabat, ocorre logo após a oração da tarde, Minchá. Essa refeição, como a do dia do Shabat, é conduzida antes do pôr do sol. Ensina a Cabalá que durante essas horas, as glórias de todo o Shabat se concentram.
Diz-se sobre tal refeição: “Eu os sustentarei com a herança de Jacob seu pai” (Isaías 58:14), que se refere a uma herança ilimitada, como consta na Torá sobre nosso Patriarca: “Você se espalhará para o oeste e o leste, o norte e o sul” (Gênese 28:14). A partir desse nível de herança ilimitada, o Shabat ilumina os seis dias mundanos que o seguem.
A luz e a revelação do Shabat atingem seu ápice no crepúsculo. Nos dias da semana, a tarde é um período em que a benevolência Divina é gradualmente sobreposta pela severidade Divina. O período da tarde dos dias da semana é um momento de vitalidade minguante, associada à Sefirá de Guevurá. No Shabat, contudo, ocorre exatamente o oposto: o horário da tarde do Sétimo Dia é considerado o ponto máximo do dia sagrado – o momento da “graça Divina” – de iluminação suprema. Não é um momento de severidade Divina, mas, muito pelo contrário, “um descanso de paz, tranquilidade, serenidade e segurança”, como recitamos na oração da Amidá de Minchá do Shabat. Desde a época talmúdica, as pessoas se congregavam na sinagoga antes de Minchá para estudar a Torá. Durante a terceira refeição do Shabat, é costume se aprofundar em assuntos relacionados à Torá e à fé.
A Despedida do Shabat
Quando termina o Shabat, é realizada a cerimônia da Havdalá, que literalmente significa “separação”. De certa forma, corresponde ao Kidush de sexta-feira à noite.
Havdalá serve para distinguir o Sétimo Dia sagrado dos demais, mundanos, que estão prestes a se iniciar. Por meio de tal ritual religioso, homenageamos o Shabat ao acompanhá-lo em sua partida, da mesma forma que fomos recebê-lo no dia anterior, por meio das orações na sinagoga e do Kidush. É digno de nota o fato de darmos as boas-vindas ao Shabat e de nos despedimos dele por meio da luz – as velas de Shabat e a tocha da Havdalá, respectivamente. Assim, cumprimos o mandamento de: “Glorifique o Eterno com luz” (Isaías 24:15).
A recitação da Havdalá e os objetos utilizados para cumprir esse mandamento – o vinho, a vela trançada e as especiarias – auxiliam a alma a fazer a transição do Shabat para os dias da semana. O propósito dessa cerimônia é trazer a luz do Shabat para dentro do mundano, para que os dias da semana não sejam inteiramente cinza, desprovidos de cor, e sim, iluminados pela luz do Sétimo Dia. Por esse motivo, a Havdalá costuma ser seguida por orações e apelos ao Divino para que a semana que se iniciou caminhe bem.
Desde a época talmúdica, era comum fazer uma refeição especial após o término do Shabat – a “quarta refeição do Shabat”, denominada em muitas fontes judaicas de Seudat Melaveh Malka – a refeição para escoltar a Rainha. (O Shabat, que reflete Malchut, a Sefirá “feminina” de Realeza, é frequentemente chamada de “Rainha”). Essa refeição é também conhecida como a “refeição do Rei David”, pois complementa as três refeições de Shabat, que representam os três Patriarcas, Avraham, Isaac e Jacob. A Cabalá ensina que a Carruagem Divina contém “quatro rodas” – os três Patriarcas e o Rei David. Há, portanto, uma quarta refeição, associada à quarta roda da Carruagem Celestial. Como a Havdalá, a Seudat Melaveh Malka é feita em homenagem ao Shabat – uma despedida com celebração e alegria. Da mesma forma que se recebe o Shabat com muita alegria e com uma refeição – o Kidush e o jantar de sexta-feira à noite – o Povo Judeu se despede do dia sagrado com uma refeição festiva – a Refeição da Escolta da Rainha.
A Lei Judaica determina que a Seudat Melaveh Malka deva ser preparada da mesma forma pela qual foram preparadas as outras refeições de Shabat: a mesa deve ser posta, mesmo que não se coma muito. É costume utilizar dois pães para essa refeição, como nas outras três refeições de Shabat. Também é costume continuar vestindo os trajes de Shabat durante Seudat Melaveh Malka.
Os Sábios enfatizaram a  importância dessa refeição e os benefícios espirituais recebidos por aqueles que a conduzem meticulosamente. Os místicos ensinam que o alimento ingerido durante a Seudat Melaveh Malkasustenta um certo osso humano chamado de luz. Não se sabe exatamente onde fica localizado tal osso. O que é significativo é que a luz tem a qualidade singular de não se decompor após a pessoa falecer. Ensina-se que quando houver a Ressurreição dos Mortos, na Era Messiânica, D’us utilizará tal osso para reconstruir os corpos daqueles que faleceram.
Shabat e o Sétimo Milênio
O Talmud ensina que os seis dias da Criação correspondem aos seis mil anos de história humana. O sétimo dia, Shabat, corresponde ao sétimo milênio, o “dia em que todos os dias serão Shabat”.
Em seu comentário sobre a Torá, Nachmanides cita o verso dos Salmos que afirma: “Mil anos em Seus olhos são como um dia que se passou” (Salmo 90:4), e explica como cada um dos seis dias da Criação está associado a um dos milênios da história humana.
Shabat, o dia sagrado de descanso e deleite, é o sétimo e último dia da semana. Corresponde ao sétimo milênio, a Era Messiânica – a era em que todo o mundo será permeado pela Shechiná – a Presença Divina. Nesses mil anos, a santidade, a bondade e o deleite preencherão o mundo e a humanidade nunca mais conhecerá o sofrimento e a morte.
A Torá nos ordena trabalhar durante os seis dias da semana, para que possamos nos aperfeiçoar e melhorar o mundo que nos foi confiado por Aquele que o criou. O sétimo dia, Shabat, é um alívio garantido que ocorre ao final da semana. O mesmo vale para a história da humanidade. Por quase seis mil anos, a humanidade trabalhou para melhorar o mundo e tornar a vida nele melhor para seus habitantes. Com o advento do sétimo milênio, os seres humanos, judeus e não judeus, poderão desfrutar dos frutos de seu trabalho.
De fato, a história humana tem início e destino – um destino feliz para todas as pessoas de bem. Por meio do Shabat, foi dado ao Povo Judeu um vislumbre do Mundo Vindouro – a utopia que muito em breve chegará. Toda semana, durante um dia, somos lembrados do propósito máximo e do destino da Criação – a era em que o mundo todo será aperfeiçoado e se deleitará com a Luz do Infinito.
Bibliografia: 
Rabi Steinsaltz, Adin (Even Israel), The Miracle of the Seventh Day: A Guide to the Spiritual Meaning, Significance and Weekly Practice of the Jewish Sabbath, Jossey Bass
Rabi Steinsaltz, Adin (Even Israel), The Mystical Meaning of Shabbat, Merkos L’Inyonei Chinuch
Rabi Finkelman, Shimon The Sabbath – Its Essence and Significance, Artscroll Mesorah Series

segunda-feira, 21 de abril de 2014

Falecimento

            

Cadish

Antes da alma conhecer por experiência própria as virtudes de estar num corpo, ela nasce contra a sua vontade e não quer entrar nele. Mas, depois de viver e conhecer o significado de ser capaz de praticar uma mitsvá, ela deixa agora o corpo contra a sua vontade. Por isso a Mishná diz: "Você nasce contra a sua vontade e depois morre contra a sua vontade". Recitamos o Cadish para ajudar a minimizar o trauma da alma de se separar do corpo, pois isto é muito doloroso para ela. O Cadish facilita o caminho é recitado durante onze meses, ainda que leve doze para este trauma se resolver. Como não queremos indicar, em respeito à alma, que ela, particularmente, precisou de doze meses completos para se reajustar ao Céu recitamos o Cadish apenas por onze meses.

O que é o Cadish? O Cadish é um hino de louvor a D’us. Por ser tradicionalmente recitado nos enterros e em honra a entes falecidos tornou-se popularmente identificado como uma oração pelos mortos. Entretanto, o Cadish não faz nenhuma referência à morte ou ao luto. Embora os cabalistas do século XVI atribuíssem um caráter místico ao Cadish, alegando que toda vez que era recitado a alma do falecido se elevava a um nível espiritual mais alto o valor intrínseco do Cadish se relaciona à pessoa que o recita. É uma expressão pública de fé em D’us por parte do enlutado, uma aceitação da Sua vontade mesmo em face da dor e da tristeza, uma submissão aos desígnios divinos diante da incapacidade de racionalizar uma tragédia pessoal.

Cadish dos Enlutados
Leis e costumes

• O Cadish é recitado por onze meses menos um dia a partir do dia do falecimento.

• É importante lembrar que o Cadish só tem valor quando há minyan, i. e., num grupo de dez judeus, e estes respondem Amên, o que traz méritos para a alma.

• O Cadish é dito em pé, com os pés juntos.

• Antes de recitar o último verso, “Ossê Shalom Bimromav...”, dá-se três passos para trás.

• Em todas as orações em que o Cadish é dito cinco velas devem ser acesas na frente do ledor.

• Os onze meses do Cadish terminam na oração de Minchá do último dia do décimo-primeiro mês.

• O Cadish também é dito no dia do yahrzeit da data hebraica, ou seja, durante a oração de Arvit na noite que antecede o aniversário de falecimento e nas orações de Shacharit e Minchá deste dia.

• Pais que não têm filhos homens devem assegurar que o Cadish será dito por parente, amigo ou integrante de minyan na sinagoga.

• É costume os enlutados praticarem boas ações em nome do falecido, principalmente doar tsedacá em seu nome.

Se não há filhos para recitar o Cadish, a família deve pagar a alguém para recitar o Cadish durante este período.

Yitgadal veyitcadash shemê, bealmá di verá chir‘utê. Veyamlich malchutê,veyatsmach purcanê, vicarev Meshichê. Bechayechon uvyomechon, uvchayê dechol Bet Yisrael, baagalá, uvizman cariv, ve’imru amen. Yehê shemê rabá mevarach lealam ul’almê almayá. Yitbarech, veyishtabach, veyitpaer, veyitromam, veyitnassê, veyit’hadar, veyit‘alê, veyit’halal shemê decudshá berich Hu. Leelá min col birchatá veshiratá, tushbechatá venechematá, daamiran bealmá, ve‘imru amen.

Al Yisrael, veal rabanan, veal talmidehon, veal col talmidê talmidehon, veal col man deaskin beoraytá, di veatrá haden, vedi vechol atar vaatar; yehê lehon ulchon shelamá rabá, chiná, vechisdá, verachamin, vechayin arichin, umzoná revichá, ufurcaná min cadam Avuhon devishmayá, ve‘imru amen

Yehê shelamá rabá min shemayá, vechayim tovim, alênu veal col Yisrael, ve‘imru amen. Ossê shalom (nos dez dias entre Rosh Hashaná e yom kipur,substitui-se por: hashalom) bimromav, hu yaassê shalom alênu, veal col Yisrael; ve‘imru amen.

Tradução:
Que seja exaltado e santificado Seu grande nome (congregação: Amém), no mundo que Ele criou segundo Sua vontade. Que Ele estabeleça Seu Reino, faça vir Sua redenção e aproxime a vinda de Seu Mashiach (congregação: Amém) em vossa vida e em vossos dias e na vida de toda a Casa de Israel, pronta e brevemente, e dizei amém. (Congregação: Amém)

Que Seu grande nome seja bendito eternamente e por todo o sempre; que seja bendito.)
Que Seu grande nome seja bendito eternamente e por todo o sempre. Que seja bendito, louvado, glorificado, exaltado, engrandecido, honrado, elevado e excelentemente adorado o nome do Santo, bendito seja Ele (congregação: Amém), acima de todas as bênçãos, hinos, louvores e consolos que possam ser proferidos no mundo, e dizei amém (congregação: Amém).

Que haja paz abundante emanada dos Céus, e bênção de vida sobre nós e sobre todo [o povo de] Israel; e dizei amém (congregação: Amém).

Aquele que estabelece (nos dez dias entre Rosh Hashaná e Yom Kipur, acrescenta-se: “a”) paz em Suas Alturas, possa Ele estabelecer paz para nós e para todo Israel; e dizei amém (congregação: Amém).

Obs: Ao terminar os trechos “Rabi Yishmael” (no início da Prece Matinal) e “En k’E-lo-hê-nu” (no final da Prece Matinal) e também após um estudo de Torá na presença de dez homens (minyan), insere-se o seguinte parágrafo antes de “Yehê shelamá rabá” (“Que haja paz abundante”)

Sobre Israel, sobre nossos mestres e sobre seus discípulos e sobre todos os discípulos de seus discípulos e sobre todos os dedicados ao estudo de Torá, quer aqui, quer em qualquer lugar; sobre eles e sobre vós, se derrame paz abundante, graça, benevolência, misericórdia, vida prolongada, sustento farto e salvação, proporcionados por Seu Pai nos Céus, e dizei amém (congregação:Amém).

Com este acréscimo o Cadish é denominado “Cadish de’Rabanan”.

Curiosidades

Por que o Cadish é recitado em aramaico? Nos tempos talmúdicos, o hebraico era o idioma dos eruditos, a língua do estudo e da oração, porém o vernáculo era o aramaico.
Os rabinos achavam essencial que qualquer leigo pudesse captar plenamente o significado do Cadish. Decretaram que esta oração fosse sempre proferida na língua em que foi composta: em aramaico, a linguagem do povo .

Por que existem varias formas de Cadish? O Cadish era originalmente recitado no final de um sermão ou de uma sessão de estudos, e continha um parágrafo a mais que constituía uma prece pelo bem estar de todos que se dedicam ao estudo da Torá. A primeira referência ao Cadish como uma oração dos enlutados se encontra no livro Or Zarua, escrito no século XIII pelo Rabino Isaac Ben Moses de Viena.
Além destas duas formas - o Cadish dos rabinos (Cadish de'Rabanan) e o dos enlutados (Cadish Yatom) - duas outras versões são usadas em nossas sinagogas hoje em dia: uma forma abreviada recitada no final de cada parte do serviço, o meio cadish (Chatzi Cadish) e o "Grande Cadish" (Cadish Shalem), recitado no término do serviço religioso.

Por que os filhos devem recitar o Cadish diariamente durante onze meses após a morte do pai ou da mãe? Originalmente, os rabinos estipularam que o Cadish deveria ser recitado durante um ano, até terminar o prazo de luto no qual os filhos devem se abster de participar de reuniões festivas, etc. Uma pessoa, após a morte, deve expiar os pecados cometidos na Terra, antes que sua alma entre no Gan Eden. Quanto maior o número de pecados, maior o tempo de expiação, sendo que o prazo máximo era de doze meses.
Baseado nesta crença, o Rabino Isserles de Cracóvia decretou no século XVI que o Cadish deveria ser recitado somente durante onze meses, pois se fosse mantido o período total de um ano, poderia parecer que o falecido tinha sido um pecador do mais alto grau .


O que é o Gan Éden (Paraíso)? O local onde repousam as almas, o mundo espiritual. A alma volta ao mundo das almas e se adapta a ele como se nunca houvesse saído. É uma alma entre almas sem precisar de reintegração. Isto é o Paraíso. O período de reintegração tem, no máximo, doze meses. E para ajudar na adaptação, recitamos o Cadish. Damos à alma o crédito por todas as mitsvot que foram realizadas devido à sua influência sobre nós.Nos Provérbios, o mais sábio dos homens diz: "Eu elogio os mortos que já morreram mais do que os vivos." Uma das razões para dizer isto é porque o impacto, a impressão e a influência extraordinários que uma pessoa tem depois de sua morte é muito maior e mais forte que quando viva.

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Um Mar de Pessoas

Comentários sobre a festa de Pessach

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As três festas de peregrinação (Shloshet Haregalim)

A festa de Pessach é uma das três festas chamadas de “festas de peregrinação”, juntamente com Shavuot e Sucot. O significado desta expressão é que, nestas três datas, o povo de Israel deveria deixar suas casas e campos para chegar a Jerusalém e participar das festividades do Templo.
Para poder chegar a tempo, tinham que deixar suas casas uma ou duas semanas antes do início da festa, em grandes caravanas de peregrinos, juntamente com toda a família e, alguns animais para os sacrifícios do Templo.
Se fosse em Pessach, deveriam pensar não somente em um cordeiro para a noite do Seder, mas também em algum outro animal para o abate de “Chagiga” – isto é, o sacrifício de ‘festa’ sacrificado pela manhã e que podia ser consumido nos dois primeiros dias e durante a primeira noite. Certamente trariam muitos outros animais para comer durante a semana que durava Pessach ou Sucot, uma vez que neste feriado, a alegria é ‘obrigatória’ e o dito talmúdico diz que “não há alegria sem carne (de gado) e vinho”.
Nem todos possuíam animais suficientes para trazer ou mesmo como trazê-los ao Templo, então vinham os pastores a Jerusalém, com grandes rebanhos de gado, maiores e menores, proporcionando aos peregrinos, mais esta opção.
Um mar de pessoas
Definitivamente um dos primeiros efeitos destas peregrinações é o contato direto, durante todo o período da festa, com milhares de outras pessoas, até então desconhecidas e das quais, muito provavelmente, nunca os verá novamente. Um mar de pessoas subindo as escadas em direção ao Templo, desde a cidade de David, no período do Primeiro Templo, ou a partir da colina ocidental, durante o Segundo Templo. Todos já se haviam banhado nas vários ‘mikva’ot’ que haviam nas redondezas, antes de poderem entrar nos recintos sagrados do Monte do Templo.
Esse contato, esse sentir-se parte de um enorme grupo de pessoas com o mesmo objetivo, no mesmo sentido, fora de todos os efeitos espirituais que ocorrem graças aos sacrifícios e à presença no templo, muda completamente a perspectiva das pessoas que participam do evento.
Em um estudo publicado na National Geographic, em Israel, a Sra. Laura Spini explica sobre a festa hindu que acontece na cidade de Allahabad, a cada primavera. Chegam dezenas de milhões de pessoas a localidade para, por uma semana, banhar-se no rio Ganges, transformando o evento na, provavelmente, maior festa religiosa do mundo. Uma equipe de psicólogos liderados pelo Dr. Steven Fitting, da Universidade britânica de St. Andrews, buscaram examinar os efeitos de viver em duras condições de peregrinação nos participantes do chamado, Maha Kumbh Mela.
Identidade Coletiva
Se poderia pensar que o indivíduo perde a sua personalidade particular neste momento, podendo levar à perder sua capacidade de pensar com sabedoria e agir com moralidade, características estas, tão básicas, que nos tornam humanos. Mas o estudo mostra que esses encontros são importantes e até mesmo, essenciais para a sociedade. Realmente nos ajudam a consolidar um sentimento de identidade coletiva, ajudando a criar novas relações com os outros e inclusive, melhorar a nossa sensação física.
É verdade que existe diferença entre a multidão física e a psicológica. Ou seja, não é o mesmo quando muitas pessoas se juntam no metro ou até mesmo em um festival de musica, de quando têm um objetivo em comum a realizar. Neste último caso, aprendemos a usar a palavra “nós” em vez da palavra “eu”, mas, sem perder a identidade particular.
Ao participar de um grupo grande, a pessoa pode mudar sua maneira de ver o mundo, diz o psicólogo Mark Levine, colega do Dr. Racor. Reações à superlotação, música alta e local de acampamento, quando realizadas em um mesmo objetivo, principalmente quando se trata de um grande evento religioso, se distinguem das que, no passado, poderiam ser consideradas “normais”.
Contato com a Shechiná
É claro que esta é apenas uma das grandes vantagens da peregrinação ao Templo de Jerusalém, já que o principal é o contato direto com a Presença Divina, muito evidente no Templo. Este contato que gerava o bom humor necessário para que, as pessoas muito qualificadas, chegassem ao nível da profecia.
Mas mesmo quando não se alcançava a profecia, se podia chegar a um estado de espírito próximo da santidade que permitia uma melhor conexão com o Criador, através das orações ou da melhor compreensão das mensagens da Torá e de outros livros do ‘Tanakh’.
O simples contato físico com pessoas santas que frequentavam a peregrinação e se misturavam com o resto dos fiéis, já causava uma grande impressão na alma e condicionava o comportamento de todos os presentes que voltavam, em seguida, fortificados à rotina em suas respectivas casas.
Por tudo isso, esperamos impacientes o momento em que possamos retomar a verdadeira peregrinação. É verdade que, hoje, grandes multidões chegam ao ‘Kotel’, o muro de contenção do Monte do Templo, o lugar mais próximo do Santuário que se pode chegar. Mas, ainda, estamos muito longe do que foi nos dias do Templo, da peregrinação com um verdadeiro contato com a ‘Shechiná’.
“Que o Templo seja reconstruído em breve, nos nossos dias… “

Fonte: Shavei Israel 

Cremação

     O que a Torá diz...

  

            
Se alguém de nossa família deixa como pedido antes de sua morte para que seu corpo seja cremado, como devemos proceder? Cumprir sua vontade? O que o judaísmo fala sobre isto?          
                         
           
RESPOSTA:

A cremação é proibida no Judaísmo porque a morte envolve mais que apenas um corpo. Trata-se da alma.

Devido ao custo elevado do enterro — caixão, matseivá (lápide), terreno no cemitério, ou movidos simplesmente por um desejo pessoal — muitos judeus estão optando pela cremação. Qual a posição judaica?

O Judaísmo permite apenas o enterro. A fonte para isso é a Torá, onde D’us diz a Adam: "Retornarás ao solo, pois foi do solo que foste feito" (Bereshit 3:19).

O Judaísmo não somente proíbe expressamente a cremação, como insiste num enterro muito simples diretamente no chão.

Com a morte, a alma passa por uma dolorosa separação do corpo, que até então a tinha abrigado. Este processo de separação ocorre conforme vai ocorrendo a decomposição do corpo. Quando o corpo é enterrado, desintegra-se lentamente, fornecendo desta forma um conforto à alma que está se liberando do corpo. Esta decomposição é fundamental, e é por isso que a Lei Judaica proíbe embalsamar ou enterrar em um mausoléu, o que na verdade retardaria este processo fundamental de decomposição.

Além disso, os judeus são sepultados em um caixão de madeira, que se deteriora mais rapidamente. Da mesma forma, a Lei Judaica decreta que o sepultamento seja feito o mais rápido possível depois da morte. (Em Israel, os funerais freqüentemente ocorrem no mesmo dia da morte). Tudo isso é feito para o benefício da alma.

Uma razão pela qual o Judaísmo proíbe a cremação é que a alma sofreria um grande choque, devido à súbita separação artificial do corpo. Como diz o Talmud: "O enterro não é para o bem dos vivos, mas sim para os mortos" (Sanhedrin 47a).

Ressurreição

A tradição judaica registra que com o enterro, um único osso na parte posterior do pescoço nunca se decompõe. É a partir deste osso — chamado osso luz — que o corpo humano será reconstruído na futura Era messiânica, quando todos os mortos serão ressuscitados. Com a cremação, aquele osso pode ser destruído, e o processo de ressurreição prejudicado.

Na verdade, alguém que escolhe a cremação age como se não acreditasse na ressurreição. A ressurreição é uma crença fundamental do Judaísmo, como foi expresso na obra clássica de Maimônides em seus Treze Princípios da Fé:

"Creio com plena fé na Ressurreição dos Mortos, que ocorrerá quando for a vontade do Criador."

Fontes:
Beit Yitschak, Yoreh Deah II, 195 (baseado no Talmud — Temurah 34a).
Achiezer III, 72:4 (baseado em devarim 21:23, e Maimônides — Leis do Sanhedrin 15:8)
http://www.chabad.org.br/interativo/faq/cremacao.html

terça-feira, 20 de agosto de 2013

"O Legado dos Judeus para a Cidade de São Paulo"







Bandeirantes tinham origem judaica

MARIO CESAR CARVALHO
da Folha de S.Paulo

Os historiadores nunca primaram pelo equilíbrio ao retratar Antônio Raposo Tavares (1598-1658), um dos mais mitológicos bandeirantes. Ou era guindado ao céu como o "bandeirante magno, vulto formidável", segundo a descrição de Affonso Taunay, ou era jogado no inferno como assassino, herege e matador de padres.

A historiadora Anita Novinsky, professora de pós-graduação na USP, reuniu documentos encontrados em Portugal segundo os quais Raposo Tavares teria razões religiosas para queimar igrejas: sua madrasta, Maria da Costa, foi presa pela Inquisição em 1618 sob a acusação de "judaísmo" e só saiu do cárcere seis anos depois.

Em 1496, D. Manuel, rei de Portugal, decretou que os judeus deveriam ser expulsos do país. Só poderiam ficar os que aceitassem a conversão ao catolicismo, chamados de cristãos novos.

Raposo Tavares foi criado até os 18 anos na casa da madrasta, uma cristã nova que seguia a tradição religiosa como "uma judia fervorosa", na definição de Novinsky. A mãe de Raposo Tavares também era cristã nova.

"Há razões ideológicas na fúria dos bandeirantes contra a igreja. Ela representava a força que tinha destruído suas vidas e confiscado seus bens em Portugal", diz Novinsky, autora de oito livros sobre a Inquisição. Raposo Tavares matou jesuítas porque eles eram comissários da Inquisição na América, segundo a historiadora.

Os documentos serão debatidos no simpósio "O Legado dos Judeus para a Cidade de São Paulo", em novembro. O simpósio é promovido pelo Laboratório de Estudos sobre a Intolerância, da USP, e pelo clube A Hebraica.

Uma outra história

Segundo a nova perspectiva, Raposo Tavares e bandeirantes que atacavam igrejas podem ser vistos como "subversivos", desafiadores da hegemonia católica, na visão de Novinsky. Entre os bandeirantes, eram cristãos novos Raposo Tavares, Fernão Dias Paes e Brás Leme. Baltazar Fernandes, fundador de Sorocaba, matou com um tiro na cabeça o padre Diogo de Alfaro, que tinha sido enviado pela Inquisição para investigar os paulistas.

"A história do período colonial precisa ser reescrita", defende. Os novos documentos mudam as histórias das bandeiras e do Brasil, de acordo com a historiadora.

Os ataques das bandeiras às reduções, áreas em que os jesuítas agrupavam os índios para catequizá-los, ocorreram na primeira metade do século 17.

O mais célebre dos ataques foi contra as reduções na região de Guairá, hoje território paraguaio, em 1628. Raposo Tavares teria saído de São Paulo com 900 brancos e 3.000 índios.

Foi nesse episódio que Raposo Tavares fez a sua confissão de judaísmo, na visão de Novinsky. Uma carta de Francisco Vasques Trujillo escrita em 1631 menciona que, ao ser questionado com que autoridade moral os paulistas atacavam os índios, ele responde que era com a autoridade "que lhes dava os livros de Moisés".

O saldo da batalha para os bandeirantes foi a escravização de 2.000 índios que estavam sendo catequizados. Com a expulsão dos jesuítas espanhóis, Portugal ganhou o território onde ficam os Estados do Paraná, de Santa Catarina, do Rio Grande do Sul e de Mato Grosso. A escravização dos índios acabou consagrando a teoria de que os bandeirantes eram movidos por razões econômicas.

O historiador John Monteiro, professor da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), autor de "Negros da Terra: Índios e Bandeirantes nas Origens de São Paulo", diz que os documentos reunidos por Novinsky mostram que a razão econômica é insuficiente para explicar os embates entre colonos e jesuítas. Não há dúvida de que ambos lutavam pelos índios para usufruir da mão-de-obra barata. Mas por que os confrontos com os bandeirantes paulistas foram os mais cruentos?

A questão religiosa pode explicar a ferocidade, afirma Monteiro. É uma peculiaridade da colonização de São Paulo que não se repete em outros lugares: "Tenho certeza de que as disputas não eram só econômicas. Passavam por alianças de famílias e pela identidade religiosa".

Fuga para São Paulo

Paulo Prado (1869-1943), o milionário do café e patrono da Semana de Arte Moderna de 1922, foi o primeiro a mencionar a influência dos judeus na São Paulo dos séculos 16 e 17. No livro "Paulística Etc." (1925) ele cita atas da Câmara de 1578 e 1582 que fazem referências a "judeus cristãos".

O isolamento de São Paulo, segundo Prado, levava judeus de Pernambuco e da Bahia a migrar para a cidade: "(...) nenhum outro sítio povoado do território colonial oferecia melhor acolhida para a migração judia. Em São Paulo não os perseguia esse formidável instrumento da Inquisição, que nunca chegou aqui".

Prado não sabia à época que dois cristãos novos que moravam em São Paulo haviam sido executados pela Inquisição: Theotonio da Costa, em 1686, e Miguel de Mendonça Valladolid, em 1731.

No livro que publicou em 1958 sobre Raposo Tavares, o historiador português Jaime Cortesão levantou a hipótese de que o bandeirante era cristão novo e que tivera problemas com a Inquisição.

Onze anos depois, José Gonçalves Salvador, professor aposentado da USP,
escreveu o primeiro artigo sobre cristãos novos em São Paulo e sobre a origem judaica de Raposo Tavares.

Havia razões sérias para que cristãos novos escondessem suas raízes judaicas, diz o historiador Paulo Valadares, um dos autores do "Dicionário Sefaradi de Sobrenomes" --sefaradi ou sefaradita é a forma como são designados os judeus da península Ibérica.

"A Inquisição foi uma forma de apartheid. Os que tinham origem judaica tinham de pagar mais tributos e não tinham acesso a certos cargos", afirma Valadares.

Para ingressar em ordens religiosas ou no exército, o candidato precisava provar que não tinha antepassado judeu, árabe, negro ou índio por até sete gerações.


Para ascender, era necessário renegar o passado. A prática era corrente em São Paulo desde sua fundação, em 1554. Segundo Valadares, a mãe de Anchieta era cristã nova e seu trisavô foi queimado pela Inquisição.

sexta-feira, 7 de junho de 2013

A Shivá








O Judaísmo, com sua longa história de lidar com a alma do homem, seu conhecimento íntimo das realizações e pontos fracos, sua grandeza e sua fraqueza, sabiamente criou períodos graduais durante os quais o enlutado expressa sua dor, e libera com calculada regularidade as tensões interiores causadas pelo luto. A religião judaica fornece uma abordagem lindamente estruturada para o luto.

A sensibilidade da Torá, juntamente com a experiência religiosa acumulada em séculos, ensinou ao judeu como lidar melhor com a situação de pesar. Foi somente com o surgimento da moderna Psicologia, com suas ferramentas científicas e experimentação controlada, que o valor dessa estrutura no sofrimento foi reconhecido.

Joshua Loth Lieberman, em seu livro Paz de Espírito, afirma: "As descobertas da Psiquiatria – de como é essencial expressar, em vez de reprimir a dor, falar sobre a perda com amigos e companheiros, mover-se passo a passo novamente da inatividade à atividade– nos lembra que os antigos mestres do Judaísmo com freqüência tinham sabedoria intuitiva sobre a natureza humana e suas necessidades, algo que a nossa era mais sofisticada e liberal esqueceu. O Judaísmo tradicional, na verdade, teve a sabedoria de delinear quase todos os procedimentos para o estado de pesar que levam em conta a saúde que a Psicologia contemporânea aconselha, embora o Judaísmo naturalmente não possuísse as ferramentas para o experimento científico e o estudo sistemático."

A tradição judaica dessa forma proporcionou uma libertação gradual do sofrimento, e ordenou cinco períodos sucessivos de luto, cada qual com suas próprias leis governando a expressão da dor e o processo da volta aos assuntos normais da sociedade. Encaixa-se tão acertadamente no ciclo normal de luto que alguns afirmaram que as leis do luto são descritivas, em vez de prescritivas.

Cinco Estágios do Luto

O primeiro período é entre a morte e o enterro (aninut), quando o desespero é mais intenso. Durante esse tempo, não apenas as amenidades sociais, como até exigências religiosas positivas, foram canceladas em reconhecimento ao estado de espírito do enlutado.

O segundo estágio consiste nos primeiros três dias após o funeral, dias devotados a "choro e lamentação". Durante esse tempo, o enlutado nem sequer responde aos cumprimentos, e permanece em sua casa (exceto sob circunstâncias especiais). É um tempo em que se desencoraja até visitas ao enlutado, pois é cedo demais para consolar os enlutados quando a ferida ainda estão tão fresca.

O terceiro é o período de shivá, os sete dias seguintes ao enterro (este período mais longo inclui os primeiros três dias.) Durante esse tempo o enlutado emerge do estado de luto intenso para um novo estado de mente, no qual está preparado para falar sobre a sua perda e a aceitar consolo de amigos e vizinhos. O mundo agora se amplia para o enlutado. Embora ele permaneça dentro de casa, expressando sua tristeza por meio das observâncias de avelut – sentar-se num banco baixo, usar chinelos, abster-se de arrumar-se, recitar o cadish – seus conhecidos vão à sua casa para expressar solidariedade ao seu sofrimento. O gelo interior que vem com a morte de seu parente agora começa a derreter. O isolamento do mundo das pessoas e o retiro para dentro de si mesmo agora de certo modo relaxa, e a normalidade começa a retornar.

O quarto estágio é o de sheloshim, os 30 dias que se seguem ao enterro (que incluem a shivá). O enlutado é encorajado a sair de casa após a shivá e aos poucos retornar ao convívio social, sempre reconhecendo que ainda não passou tempo suficiente para assumir as relações sociais plenas. O corte de cabelo ainda é proibido para os homens.

O quinto e último estágio é o período de doze meses (que inclui o sheloshim) durante o qual as coisas retornam ao normal, e os negócios novamente se tornam rotina, porém os sentimentos do enlutado ainda estão feridos pela ruptura de seu relacionamento com um parente. A procura de entretenimento e diversão é reduzida. Ao final deste último estágio, o período de doze meses, não se espera que a pessoa continue com seu luto, exceto por breves momentos quando yizkor ou yahrtzeit é observado. Na verdade, a nossa tradição reprova uma pessoa por prantear por mais tempo que este período prescrito.

Nesse processo de luto gradual, magnificamente concebido, o judaísmo ergue o enlutado da tristeza e desespero para a retomada de seu equilíbrio e retorno a sua vida normal.

As origens da shivá

Estabelecer um tempo para a expressão da dor está indicado na Torá e é mencionado, de forma recorrente, em suas primeiras narrativas históricas. O Sumo sacerdote, Aharon, é golpeado pela morte súbita de seus dois filhos no auge de suas carreiras. Quando Moshê pergunta por que a oferenda de sacrifício não fora comida no dia da morte deles, Aharon responde: "Coisas assim caíram sobre mim, e se eu tivesse comido a oferenda, isso teria sido agradável aos olhos do Eterno?" (Vayicrá 10:20). A explicação de Aharon é que o tempo de luto não é uma ocasião para festejar perante Hashem; é, especificamente, para expressar a dor.

Assim também, Amos refere-se a um período especial para o luto. Eles profetiza as conseqüências desastrosas da injustiça e imoralidade, e declara: "E eu transformarei seus festins em luto, e todas as suas canções em lamentos; e trarei sacos de estopa sobre todas as cinturas, e calvície sobre todas as cabeças; e farei isso como se fosse o luto pelo único filho; e o fim será um dia amargo" (Amos 8:10). O dia de chorar é yom mar: "um dia amargo".

Os Sábios escreveram que esta era a prática nos tempos antigos, ainda antes da Revelação no Monte Sinai, prantear intensamente, não apenas por um dia, mas por uma semana – shivá. Assim, Yossef foi um enlutado durante sete dias após o falecimento do seu pai, o Patriarca Yaacov.

Após a Revelação, Moshê estabeleceu os sete dias de luto por decreto especial, declarando-o como doutrina formal, que até então tinha sido praticado apenas como costume. Ele fez valer, garantiram os Sábios, os sete dias de luto assim como fez valer os sete dias bíblicos de júbilo das Grandes Festas. A conexão entre os dois opostos é sugerida no versículo de Amos, acima citado: "E eu transformarei seus festins em luto." Assim como as festas eram observadas por sete dias, também o luto deveria durar uma semana.

Assim, desde os primeiros momentos da História Judaica, o povo judeu tem cumprido shivá pelos parentes falecidos como "dias de amargura". O ocasional desrespeito a shivá em algumas partes da comunidade judaica, ou a decisão informal, sem autorização rabínica, de observar um número arbitrário de dias de luto para convir às necessidades da pessoa, ou para coincidir com um fim de semana constituem, na verdade, um nocivo desrespeito a gerações de sagrada memória.

domingo, 26 de maio de 2013

A pervertida e o hipócrita

                                           
Rabí Nissán Ben Avraham
13/05/2013


Comentários sobre a Parashá Naso  

Povo De Profetas

Normalmente, lemos a parashá de Naso logo após Shavuot. Uma coincidência, é claro, mas estamos acostumados com o fato de haverem poucas coincidências no judaísmo.

Acabamos de comemorar a entrega da Torá, no qual todo o povo em conjunto, especialmente unidos entre si, testemunham algo muito especial. Não é mais um profeta que ouve as palavras de D’us em um evento particular: o povo todo tornou-se um Povo de Profetas, uma vez que todos nós ouvimos. É verdade que nem todos ouviram as mesmas coisas, pois ainda havia diferenças entre aqueles mais preparados e os menos preparados, mas ainda assim tornaram-se profetas.

Este povo deve iniciar agora o caminho à sua terra natal, até a Terra que o Criador jurou a seus pais lhes conceder. A estrada pode ser longa ou curta: eles mesmos decidirão, com o seu comportamento, suas reações, com sua preparação.

Como uma criança que sonha em ser um adulto e não compreende totalmente as responsabilidades que isto implica. O caminho pode ser curto se aplicado na adolescência não só para desenvolver o espírito rebelde, mas também para construir as ferramentas e técnicas que necessita para sua idade adulta. Se você perder um dos dois componentes, o espírito ou os instrumentos, ao chegar no momento crucial, estará “deficiente”, o caminho ficará mais longo e isso não é bom. Não só isso,
mas também a sua adolescência será incompleta e inquieta. Uma vez que ambas as partes são essenciais.

Nesta Parashá vemos alguns preparativos para este caminho, diferentes papéis entregue para as diferentes tribos,
e, ao final, os seus respectivos presidentes fazem uma oferta única para o Tabernáculo recém-construído. E nos capítulos 5 e 6 aparecem algumas instruções para abrir os olhos para a verdade profunda.

A pervertida

O capítulo 5 fala sobre a ‘pervertida’. Uma mulher casada que mantem relações proibidas com um dos seus vizinhos. A verdade é que não sabemos o que aconteceu, e isso por si só não significa nada em absoluto.

É claro que o comportamento dela (e do vizinho, é claro) não é correto, uma vez que a Torá proíbe o sexo entre uma mulher casada com qualquer um que não seja seu marido, e isso inclui, de acordo com a Torá Oral, a proibição de estarem ambos sozinhos em algum lugar (chamado de “yichud” יִיחוּד, em hebraico). E também desde o tempo do rei David, por causa da desgraça entre seus filhos Amnon e Tamar (ver Shmuel I, capítulo 13.) Está proibido de ficar a sós com uma mulher que não seja sua esposa, mãe ou filha.

Assim, pelo simples fato de estar a sós com seu vizinho, já transgrediu, mas no momento não é punida. Mas aqui entra em jogo o ciúme de seu marido, que não confia nela (ou no vizinho) e “é ciumento”, que em hebraico é o verbo ‘lekanné’ (לקנא) que os Sábios explicam como ‘aviso’ ou seja, o marido adverte sua esposa diante de duas testemunhas para que não faça novamente, e mesmo assim, a mulher continua a mesma. Aqui, o marido pode decidir se quer ir em frente ou não. Se decidir prosseguir, deve levá-la ao templo para realizar um processo que deve revelar o que exatamente aconteceu na casa de seu vizinho, pois se não houve contato sexual não há punição, apesar de ter violado a proibição de ‘estar sozinho’, que, naturalmente, é uma punição muito mais branda.

Como muitos dos mandamentos da Torá, especialmente aqueles que falam de castigo, nós é apresentado uma negativa, e nós devemos tentar entender qual é o positivo, o que é o ideal. A Torá está dizendo que a relação de confiança, intimidade e identidade entre o marido e a mulher deve ser tal que, mesmo se a mulher é deixada sozinha com o vizinho, não passe nenhuma desconfiança pela cabeça do marido, embora as aparências possam ser diferentes.

Os Sábios acrescentam que para salvar esse casamento, o Kohen (sacerdote) deve diluír em água o Nome inefável do Criador, um sacrilégio em outras circunstâncias, como prescrito pela Torá no verso 23. Como se D’us nos estivesse dizendo que Ele confia nela (e está disposto a ‘dar Sua vida’ = diluir Seu Nome para ela) como pode ela não confiar em seu próprio marido?

O “Santinho”

Em seguida, no cap. 6, segue o mandamento sobre o Nazireu. Este homem decidiu se privar por um tempo, não inferior a 30 dias e que pode durar o quanto decidir, de beber vinho, cortar os cabelos e se contaminar com os mortos. Este homem é chamado pela Torah de ‘pecador’, como no versículo 11 diz: “por ter pecado contra a alma”. Sim, sim, eu sei que as traduções dizem o contrário, mas assim que explica o Talmud no tratado de Ta’anit 11.

Um sábio chamado Shmuel, em um local citado, disse que aquele que jejua é chamado de ‘pecador’, como na opinião de R. El’azar o Alcaparrero, que pergunta: “contra qual alma pecou o Nazireu? A não ser (O acusa) pelo fato de não beber vinho”. Mais ainda aquele que jejua, que assim, renuncia a todos os alimentos.

Isto envolve mais dois versos, um em Provérbios (12:21) que diz que “nada mal irá acontecer ao justo”, e outro no Livro de Shemot (Êxodo 21:13) que diz “e D’us o colocou em suas mão “, sobre o assunto de homicídio por acidente, aonde parece que D’s quis que isso acontecesse, mostrando que, de verdade este o “mereceu” por sua imprudência e negligência. Da mesma forma aqui se trata de um Nazareo que foi impurificado por um homem morto que ‘D’us o colocou em suas mão’ (mesmo quando não foi morto ‘por sua culpa’) o que significa que não era um dos justos, mas sim, dos pecadores.

É por isso que estamos falando de um ‘hipócrita’, alguém que quer aparecer mais do que é realmente, e este na verdade não quer cumprir esta promessa e apenas o faz pelas aparências, ou por um motivo muito superficial.

“Naso”

A ‘pervertida’ e o ‘santinho’ são duas faces opostas de aparências. Com certeza podem existir em que o Nazireu fez seu voto com plena consciência de suas ações e, portanto, não haverá nenhum “acidente” que o impurifique, e este é um verdadeiro santo, como diz o versículo 06:05. Também pode haver casos, infelizmente, que a esposa trai o marido e mantém relações proibidas com um estranho, no caso em que ambos os pecadores serão punidos como aparece no Livro de Vaicrá (Levítico 20:10). Mas a Torá quer nos dar uma visão mais elevada (“coincidentemente” o nome do parsha ‘Naso’ significa ‘eleve’), em que devemos nos aprofundar além aparências.

Somente desta forma, estamos prontos para começar o caminho, já que com ele aparecerão situações enganosas, e se não formos capazes de reconhecer se as situações são verdadeiras ou falsas, com certeza o impacto será severo.

Tendo recebido a Torá em Shavuot, estamos prestes a nos aprofundar corretamente em tudo o que estamos prestes a encontrar na estrada, como dizem os primeiros versos do Livro de Mishlei (Provérbios 01:02 – 4), que a Torá é o que nos dá a sabedoria, a instrução e a sagacidade.

Ao adquirir todos estes instrumentos de sabedoria e aprender a usá-los corretamente, podemos agarrar a mochila e se aventurar na estrada!

quinta-feira, 23 de maio de 2013

A Questão Bnei anussim

Bnei anussim da Espanha
1492 O Ano da expulsão do Povo Judeu do Reino da Espanha


A comunidade judaica medieval espanhola, era a mais antiga e próspera daquele tempo. Apesar disso, a partir de 1391, motins terríveis contra os judeus ocorreram, resultando em ondas de conversões forçadas ao catolicismo. Isto foi ocorrendo até 1492, quando os judeus foram expulsos do reino da Espanha pelos Reis católicos Fernando de Aragão e Isabel de Castela que antes expulsara os muçulmanos.  Muitos desses convertidos - conhecidos pelo termo hebraico anussim (forçados) - mantiveram a sua identidade judaica e continuou a se reunir secretamente com alguns seguindo os costumes e tradições de seus antepassados. O alcance desse fenômeno, deu durante séculos cruéis perseguições pela Inquisição, e isso continuou mesmo até hoje onde em alguns países da Europa existe um forte anti-semitismo, mas naquele tempo, alguns judeus resistiram. Um dos exemplos mais famosos são os judeus de Palma de Mallorca, conhecido como "Chuetas" que conservaram a sua identidade judaica até hoje.

Bnei anussim Portugal


Em 1497, o Rei de Portugal, deu aos judeus a escolha da conversão ou morte, apenas alguns escolheram a segunda opção, mas a maioria dos judeus Português escolheu o batismo contra a sua vontade. No entanto, a maioria desses "novos cristãos" fez todo o possível para permanecer fiel às suas raízes judaicas e transmitir-lhes de geração em geração todo o conhecimento da religião. Mas enquanto alguns foram descobertos pela Inquisição, outros conseguiram preservar e transmitir a sua identidade. Talvez o exemplo mais famoso é a comunidade de Belmonte, no norte de Portugal, onde 150 Bnei anussim foram formalmente restaurado ao povo judeu por um tribunal rabínico enviado de Israel.

Bnei anussim Brasil

Abre-se o caminho para o novo mundo, a partir do século XV, o Brasil passou a representar uma vida melhor e uma esperança de voltar à sua antiga religião. Durante décadas, o "povo da nação", como eram conhecidos os Judeus Portugueses participou ativamente da colonização e desenvolvimento do Brasil. Enquanto isso, o aperto da Inquisição se espalhava  para as novas colônias, mas não conseguiu apagar as chamas do judaísmo. Muitas famílias preservavam os costumes e rituais judaicos, junto com o sentimento de unidade ao povo judeu. Estes foram transmitidos de geração em geração até hoje.

Atualmente, um grande grupo de Bnei anussim - descendentes dos anussim - em Espanha, Portugal, Estados Unidos e outros países estão recuperando seu sentido de pertencer e de reivindicar o seu direito histórico para retornar ao seio do povo judeu.


Só que ainda existe resistência dentro da própria comunidade rabínica em aceita-los como judeus.

Traduzido do espanhol por Clayton Nesher 
Fonte: Shavei Org e Universidade de Passo Fundo - RS

Os Pathans (Índia)


Uma hipotética imagem dos Pathans no Muro das Lamentações retirada do site do Dr. Navras Aafreedi


Na aldeia de Malihabad, a 25 quilômetros da cidade indiana de Lucknow, 650 Pathans afirmam ser descendentes da tribo perdida de Efraim, expulsos pelos assírios há mais de 2.000 anos atrás. A história é potencialmente inflamatória: os Pathans – também chamado de Pashtuns ou Afridis – tornarem-se um grande componente do Talibã Afegão, e representam cerca de 15 milhões de pessoas na Índia, Afeganistão, Paquistão e algumas partes do Irã. O grupo é também referido como Bani-Israel.

Existem várias fonte que discutem a história dos Pathans. O Dr. Navras Jaat Aafreedi, Professor Assistente na Universidade Gautam Buddha em Greater Noida e um membro da comunidade, realizou uma pesquisa sobre os Pashtuns indianos e apresenta suas descobertas. Seu extenso blog e seu website oferecem muito mais detalhes, assim como fotos.

Dr. Aafreedi também escreveu sobre os Pathans em um blog que criou, focado na comunidade de Malihabad e sugere as raízes do nome tribal Afridi (nome do qual Aafreedi é derivado).

Aafreedi tem liderado um projeto para analisar o DNA dos Pathans. Para isso, ele conta com a ajuda de Tudor Parfitt, que fez a mesma pesquisa com a tribo Lenga na África.

A geneticista indiana Shahnaz Ali, que recebeu uma bolsa de estudos para trabalhar no Technion de Israel – Israel Institute of Technology – no Departamento de Nefrologia e Medicina Molecular, está conduzindo os testes. Shahnaz viajou para Malihabad e coletou amostras de sangue da população tribal de lá.

A Rádio Nacional de Israel, Tamar Yonah conduziu uma entrevista com Aafreedi durante um ano de licença sabática que ele tirou na Universidade de Tel Aviv.

Um artigo de 2008 do Times of India fornece um histórico mais aprofundado e descreve um plano de dois operadores turísticos de Israel em adicionar Malihabad nas excursões, “Desafio da Tribo Perdida”, criadas para comunidades judaicas distantes (incluindo os Bnei Menashe).

Malihabad é lar de várias figuras importantes da história e da cultura indiana: Urdu poeta Josh Malihabadi é desta área e Zakir Husain, o terceiro presidente da Índia, é de perto de Qayamganj.

É importante ressaltar que os Pathans não se identificam como judeus e nem reivindicam o direito de retorno perante a


Dr. Aafreedi em Israel em 2010

lei de imigração israelense. Contudo, possuem alguns costumes que se assemelham bastante a tradição judaica, incluindo o acendimento das velas no Shabat, manter longas costeletas, o uso de xales que lembram o talit, a circuncisão no oitavo dia após o nascimento e o costume do levirato.

O Rabino Marvin Tokayer fornece mais detalhes em um artigo. Basicamente:

O “talit” dos pathans é chamado de “kafan”. É um vestuário de 4 pontas no qual se amarram cordas semelhantes às franjas (tzitzit) de um talit judaico. Eles também têm um talit maior que chamam de Joy-Namaz. É uma peça de 2-3 metros quadrados feito para cobrir a cabeça e parte dos ombros, e é usado para a oração, estendido no chão na moda muçulmana. Este não tem franjas.

Os Pathans têm o costume de guardar o sábado, durante o qual não trabalham, cozinham ou assam. Os Pathans preparam 12 pães de chalá (a tradição judaica especifica apenas dois pães por refeição no Sabbath).

Os Pathans acendem uma vela para honrar o sábado. Após acesa, a vela é geralmente coberta por um grande cesto. A vela é acesa por uma mulher que passou a menopausa.

Pathans têm algumas leis dietéticas que são semelhantes às leis da kashrut. Por exemplo, eles não comem carne de cavalo ou de camelo, alimento comum na área, mas proibido aos judeus. Há algumas evidências também de que não comem carne e leite juntos. Estes têm também uma tradição de diferenciar aves puras e impuras – isto é, as que são e não são permitidas para comer.

Alguns pathans ainda usam uma pequena caixa semelhante ao tefilin judaico (filactérios). Tokayer compara isso com o uso dos “tokin” pelos japoneses Yamabushi.

Os casamentos Pathan ocorrem sob um dossel de casamento (embora este seja um costume que surgiu mais tarde, não especificamente mencionado no período anterior ao exílio das tribos de Israel).

As mulheres Pathans mantêm leis similares às leis judaicas sobre menstruação. Durante esse período, e durante os 7 dias que o sucedem, nenhum contato é permitido com o marido. Após esse período, a mulher mergulha em um rio ou nascente ou em uma casa de banhos caso a fonte natural não esteja disponível.

Tokayer também afirma em seu artigo que o sistema legal dos Pathans, conhecido como Pashtunwali, tem semelhanças com a Torá. Os Pathans, diz ele, honram o que é chamado Tavrad El Sharif (a Torá de Moisés), e se levantam com a menção do nome de Moisés, mesmo que este não seja importante no Islã.

Os nomes de algumas sub-tribos Pathan soam como os nomes das tribos de Israel: Rabani (Reuven), Shinwari (Shimon), Daftani (Naftali), Lewane (Levi), Ashuri (Asher) e Yusuf-sai (filhos de Yosef ).

Lingüisticamente, as diferenças entre os nomes originais das tribos e seus nomes atuais pode ser consequência dos diferentes dialetos da língua de modo que, por exemplo, Jaji é na verdade Gaji, que se refere a tribo de Gad.

O Dr. Aafreedi também aponta descendência israelita entre outros grupos, incluindo os Qidwai/Kidwai. Os Qidwais traçam sua genealogia á partir de um Sufi de ascendência judaica que se estabeleceu na Índia em 1191 da Era Comum.


Fonte: Shavei Org.

Se tudo isso se confirmar, o Messias esta próximo e as profecias estarão se cumprindo. Bendito seja o Eterno nosso D'us!